Onde estão as cores?
Meu mundo sempre esteve tão colorido, sempre foi um lugar agradável de estar. Até que um Troll, maldito Troll, invadiu minha vida segura, destruiu minhas boas lembranças, pisou em meus sonhos, segurou meus pés e me derrubou. Com o rosto colado ao chão já não sabia mais como levantar. Depois de horas lutando consegui erguer o rosto. Quando dei por mim estava perdida. Não, não era uma floresta com suas grandes árvores ao meu redor, como costuma acontecer com mocinhas de romances vampíricos. Estava no meio de um lugar frio, onde havia um rio congelado, com nuvens brancas, com o chão branco coberto por neve, haviam árvores, mas as mesmas já não davam mais frutos... Era um mundo destituído de toda e qualquer cor. Na momnto em que percebi esse fato entrei em desespero! ONDE ESTÃO AS CORES DA MINHA VIDA?? Então um incrível centauro veio em minha direção. Quase morri de tanto medo ao ver aquela criatura, tão diferente, tão inusitada, parada diante dos meus olhos. Ele se inclinou, estendendo seus braços pra mim, me pondo de pé, tirando os flocos brancos que cobriam meus cabelos. Com paciência esse centauro, chamado Academos, explicou que o Troll que me atacou é um ladrão de cores, disse que era um monstro muito mal que gosta de tomar o futuro de outros, que o maior objetivo dele era tomar minha esperança, não me deixar ver mais as cores, tomar meus olhos. Depois de toda a conversa, Academos me levou em suas costas até a casa de uma dríade que, segundo ele, me daria algo para comer, me deixaria tomar um banho... Hira, a dríade, me ajudou com tudo o que precisava. Enquanto passávamos do quarto para a cozinha, vi Academos sentado na sala, com os olhos fechados. Por um momento imaginei aquele centauro sem suas pernas de cavalo, como era lindo. Seria incrível se pudesse ver a cor de seus cabelos, seus olhos, sua pele.. Se pudesse ver a cor da dríade que me ajudava. Ah! Como era frustrante não poder ver as cores que me cercavam! Hira disse que precisava sair e ver como encontraríamos o Troll pra pegar de volta todas as minhas cores. Academos se ofereceu para ir junto, mas Hira preferiu que ele ficasse comigo caso o Troll voltasse tentando pegar tbm meus olhos. Calmamente o centauro sentou no chão da pequena sala da dríade. Eu estava em pé próxima a saída para o corredor vendo como aquele cara era alto. Deveria ter pelo menos 1,98m, mais tarde ele me contou que na verdade tinha 2,07m. Confesso que ficar dentro de uma árvore escondida era muito estranho. Mesmo sendo bem quente ali dentro comecei a sentir muito frio com a chegada da noite. Academos percebeu e me chamou pra que sentasse ao seu lado. Hesitei por um minuto, mas o frio se tornava mortal dentro daquele grande tronco. Muito tímida me sentei cuidadosamente próxima a suas pernas. Passei a observá-lo mais. Ele me perguntou no que estava pensando enquanto olhava seu corpo. Sem graça, respondi que tentava imaginar como seriam as cores de seus pelos, como era a cor de sua pele, seus olhos, seus cabelos compridos que batiam no ombro... Imaginava como ele seria com cores! Ele riu, desde o começo desse desastroso dia, acho que foi o primeiro riso que ouvi. Primeiro passou a mão pelos olhos, como se tentasse afastar o cansaço, depois começou a dizer: “Meus pelos – um riso – são pretos, meu cabelo tão preto quanto, minha pele é diferente da sua, tem uma cor dourada que não compreendo e meus olhos... meus olhos... serão da cor que você quiser enxergar assim que puder.”
Fiquei então imaginando os olhos. Por que não me dizer logo qual cor tinha?? Estranho. De repente lembrei que meu iPod tava dentro do bolso do meu casaco. Peguei meu bichinho pra ouvir alguma coisa e passar o tempo. Assim que liguei começou a tocar Elephant Gun, do Beirut... É uma música tão maneira! *-* Academos pegou um fone e eu fiquei com o outro ouvindo a música. Diferente do que você imagina, quem dormiu não foi eu e sim ele. Era muito inusitado! Tinha um cara, com corpo de cavalo deitado sobre meu colo! Depois acabei dormindo também, o tempo tava me empurrando para o inevitável: o sono!
Algum tempo depois, não me pergunte quanto, por que não tenho idéia, Hira voltou com um vidrinho em mãos, bem pequeno, tampado com uma rolha. Percebi que Academos não estava mais deitado ao meu lado, mas isso não fazia muita diferença. Ele poderia ter ido arejar um pouco fora da árvore. A dríade disse que ali dentro daquele pequeno vidro estavam minhas cores de volta. Disse que era só tirar a rolha e inspirar aquele ar. Assim o fiz. Respirei bem fundo e tomei pra mim todo o ar que enchia o recipiente. Tudo tornou a ter cor... Tudo se tornou feliz e alegre de novo. Excitada com a volta da minha escala de cor, queria compartilhar com Academos, queria olhá-lo, ver a cor que enchia sua íris. Logo perguntei: “Hira, onde está Academos?”. Os olhos da dríade se tornaram vagos, depois se converteram em dois oceanos de dor. Pareceu ponderar sobre o que me responderia. Depois disse: “Bem, pra que você tivesse suas cores de volta, Academos cedeu as dele para o Troll.”. Toda minha felicidade sucumbiu sob aquela avalanche que veio sobre mim. Saí pela fenda que havia naquele tronco e avistei, há uns 3 metros de distância o centauro com os olhos perdidos. Aqueles lindos olhos. Cada um com uma cor. O esquerdo vermelho, o direito negro. Lágrimas rolaram através dos meus e ele percebeu. Dos dele o mesmo ocorreu, porém suas lágrimas eram tão vermelhas quanto o carmim. Ele veio em minha direção, meu deu um doce beijo na testa e disse que não me esqueceria, que agora minhas cores eram as dele, que meus olhos eram seus olhos, minha alma era sua alma. Depois se virou e saiu cavalgando. Inutilmente corri tentando alcançá-lo. Aquela criatura mítica nunca mais saiu da minha mente, e mesmo sem vê-lo, sei que ele me observa. Um dia descreverei as cores para ele, assim como fez comigo. Academos se tornou inevitavelmente minha eterna obsessão.
FIM.
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